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domingo, 23 de janeiro de 2011

APROXIMAÇÃO DA TEMPESTADE

APROXIMAÇÃO DA TEMPESTADE

Saio pelos campos de vidro
Respirando o som dos sinos.

Topo miragens augustas
Do tempo que se prepara.
A mão do pobre me olhou,
A nuvem fecha as espáduas.

Nascem raízes do meu corpo.

Um Ente nervoso desenrola
O hieroglifo das idades:

Quando lhe perguntei meu nome
Ouvi um riso no céu.

(Murilo Mendes)

VISÃO LÚCIDA

VISÃO LÚCIDA

- Debruçado à varanda
Que enxergas no horizonte?

- Órfãos. loucos. aleijados
Em carros tintos de sangue,
Cegos guiados por cegos.

- Que enxergas mais no horizonte?

- Vejo a morte graciosa.

- Vês a morte graciosa?

- Sim. ela inda é muito moça.
Prepara o vestido novo
Para receber a guerra
Que cresce no bojo desta.

(Murilo Mendes)

ANAMORFOSE

ANAMORFOSE

Procurei-te Eleonora
Como um simples humano procura a árvore.
Mas que espanto e surpresa!
Tive de cobrir o rosto com a cinza do arranha-céu
E interrogar o hieroglifo da esfinge.

Magnólia cálida
Noite da aurora
Eleonora
Assim fiquei à tua espera
Em pé no monumento de areia
- Meu próprio coração absurdo.
O vento atirava largos véus
Nas constelações de perfil.

Surgiste
Ai de mim!
Dama da Inquisição
Envolta numa camisola de nuvens
Anunciando meu exílio
Antes que os cães da tua febre
Devorem meu corpo
Ao primeiro aceno da manhã.

(Murilo Mendes)

RESUMO

RESUMO

Atrás da boca
Uma cortina de fel.
Nem às vezes são remédio
As constelações do teu corpo.

Desenhar o céu diurno.

Quem me apresentará o cálice
No qual se bebe a manhã?

Rasgou-se o manto de púrpura.
Resta o diálogo com a sombra,
O encontro do muro espesso
De onde surge um deus amargo
Reclamando o que não fiz.

(Murilo Mendes)

XANGÔ

Xangô

Num sujo mocambo dos "Quatro Recantos".
quibundos, cafuzos, cabindas, mazombos
mandingam xangô.
Oxum! Oxalá. Ô! Ê!
Dois feios calungas - oxalá e taió rodeados de contas.
no centro o Oxum!
Oxum! Oxalá. Ô! Ê!
Caboclos. mulatos, negrinhas membrudas
aos tombos gemendo, cantando. rodando,
mexendo os quadris e as mamas bojudas
retumbam o tantã ...
Oxum! Oxalá. O! Ê!
Sinhô e Sinhá num mêis ou dois mêis se
há de casá
Mano e mana! Credo manço!
No centro o Oxum!
Dois feios bonecos na rede bem bamba!
loiô e laiá!
Minhas almas
santas benditas
aquelas são
do mesmo Senhor;
todas duas
todas três
todas seis
e todas nove!
Santo Onofre
São Gurdim
São Pagão
Anjo Custódio
Monserrate
Amém
Oxum!
No sujo mocambo a dança batuca.
Recende o fartum dos sangues cabindas.
Batendo com os pés, tremendo com as ancas,
volteia sem roupas
com o santo Oxum-Níla
a preta mais nova.
Oxum! O!
Redobram o tantã, incensam maconha!
Oxalá sorri...
E a preta mais nova com as pernas tremendo,
no crânio um zunzum,
BO ventre um chamego
de cabra no cio ... Ê! Ê!
Redobram o tantã.
Ogum taiá-iê!
Me pega ioiô!
o santo Ogum-Chila redobra o feitiço.
Oxalá sorri.
Os olhos da preta parecem dois rombos
na pele retinta.
Mas chega o momento: Xangô sai do nicho
de contas redondas,
se encarna no corpo dos negros fetiches ...
A negra mais nova se espoja no chão.
Acode o rnocambo,
Xangô tinha entrado no ventre bojudo,
subira pro crânio da negra mais nova.
Num canto da sala
Oxalá sorri.
Meu São Mangangá
Caculo
Pitomba
Gambâ-marundu
Gurdim
Santo Onofre
Custódio
Ogum.
Minhas almas
santas benditas
aquelas são
do mesmo Senhor
todas duas
todas três
todas nove
o mal seja nela
São Marcos, São Mancos
com o signo de Salomão
com Ogum Chila na mão
com três cruzes no surrão
S. Cosme! S. Damiãol
Credo
Oxum-Nila
Amen.

(Jorge de Lima)

ORFEU

ORFEU

O sino volta de longe,
Desperta a ronda infantil.
Os homens-enigmas passam,
Não reconhecem ninguém.
O mundo muitas vezes
É tão pouco sobrenatural.

Penso nas amadas vivas e mortas,
Penso em suas filhas
Que são um pouco minhas filhas.

Ajudo a construir
A Poesia futura,
Mesmo apesar dos fuzis.

Os planetas vão se aproximando,
Alguém volta para o céu:
O universo é um só.

(Murilo Mendes)

ABISMO VOADOR

ABISMO VOADOR

Cordélia semeia pés de nuvem,
Colhe miosótis, gramofones.

Que calma no mapa-múndi,
Ciclone nos teus braços.

o espartilho, o diadema,
Voltam à moda entre as árvores.

Estamos vestidos de alfabeto,
Não sabemos nosso nome.

Cavalos brancos vermelhos
Mastigam o mundo:
Olhai a sombra da terra,
Uma enorme guilhotina.

Galopa fantasma,
Vida contra a vida.

(Murilo Mendes)